Besteira de legado

 Talvez esta seja a quinta ou sexta tentativa, nos últimos três anos, de iniciar uma rotina de escrita sobre a maternidade e suas nuances, com o objetivo de registrar também memórias que, quem sabe, minha filha se interesse em ler um dia.

Não dá pra saber se ela será leitora obsessiva como eu e ainda que seja, se artigos como este estarão entre seus interesses de leitura. Confesso que, em 2020, ano em que ela nasceu, cheguei a registrar algumas notas interessantes sobre o desenvolvimento dela, sobre o meu encanto — e medos — com toda a transformação que advém da primeira gestação, entre outras coisas. Mas se perdeu. 

É que eu tento ser organizada, mas sou tão bagunceira quanto impulsiva que não lembro qual plataforma usei para salvar os textos (se blogger, se wordpress…) e nem o domínio que usei. Era algo parecido com “para maria flor aos dezoito”. 

Sobre ser impulsiva, é pelo fato de que provavelmente excluí tudo algum tempo depois, em um rompante de “que besteira de legado o quê, ninguém se importa”.

É raro, mas acontece bastante.

Mas a minha vontade de anotar memórias nunca esvaiu. Inclusive, contradigo a última postagem do Medium, de 2020. “Porque não escrevo mais diários”. Sim, foi um episódio triste e marcante, que me desanimou de manter essa rotina de registros, mas confesso que hoje, quase três anos depois dessa afirmação, já penso diferente. E isso é tão normal quanto mudar o corte de cabelo. Mudar. Mudar de opinião, mudar de ideia, conceitos. Mudar a meta.

Mudei. Mudei, sim. Talvez ainda ache um traço de arrogância querer deixar escritos como um legado para alguém. Imagine, pensar que daqui a alguns anos alguém encontre esse amontoado de textos que falam sobre tudo e sobre nada, e tenha interesse em lê-los. Ou publicá-los post mortem. Arrogância total. Não que eu não tenha algo a dizer, não que eu sofra da síndrome do impostor e me considere desinteressante no quesito literário.

Só preferiria escrever por querer escrever, sem pensar o tempo todo nessa besteira de deixar legado. Mas quem disse que consigo.

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