Revirando o baú de memórias maternais

 Sigo frustrada em não conseguir encontrar os textos que havia escrito na época do nascimento da Maria Flor. Encontrei um outro blog que me serviu de terapia em 2018, com várias memórias dramáticas na época - e engraçadíssimas agora que reli - mas o da maternidade não achei. Acho que excluí mesmo.

De toda forma, aproveito essa madrugada insone em que ela está dormindo na casa do pai para revirar o baú cerebral e resgatar algumas lembranças gostosinhas do fatídico ano.

Nesse mesmo dia, três anos atrás, deixe-me ver. Dois de julho. Estava com muitos quilos a mais, aturando diversos episódios de azia, principalmente à noite. Lembro que já estava complicado para dormir. Deitava e passava muitos minutos olhando para cima do armário à minha frente, onde estavam dezenas de pacotes de fralda. 

Meu psicológico já estava em contagem regressiva. Sabia que em poucos dias, a minha vida nunca mais seria a mesma. Um misto de pânico e satisfação. O parto foi marcado para o dia 28. Eu estaria com exatas 38 semanas de gestação. Lembro que também estava monitorando a glicemia. Eram duas a três agulhadinhas no dedo, tive diabetes gestacional bem no fim da jornada. 

Mas a despeito do horror que é ficar comparando gestações, eu estava em paz por, aquela altura, estar passando "só" por isso. Azia e agulhadinhas. A pior fase dos enjoos foi logo no início, acho que parou do terceiro para o quarto mês. Ah, e o inchaço.

Lembro que próximo ao fim do oitavo mês eu já estava com a aparência beem esquisita, neste sentido de inchada e... pesada. Ao contrário da beleza mágica do sétimo mês - quando fiz as fotos do ensaio de gestante - na reta final eu pedia para que o dia 28 chegasse logo. E tudo isso em meio a pedido de orçamento de livro, lançamento de e-book, trabalho de divulgação no Instagram. Um pequeno caos caseiro em meio à pandemia. 

Outro detalhe que não posso esquecer jamais. Pandemia. Foi o ano em que o mundo estava de cabeça para baixo e as incertezas ainda em alta. Muitas mortes, cadê a vacina? Faltou oxigênio em Manaus. Faltou cova para uma galera. Só o que não faltou no Brasil foi corrupção, discurso de ódio e briga em família por políticos de estimação. 

Todo mundo de máscara. Coleção de máscaras de pano, estampadas, coloridas. Parecia que seria um cenário fixo por bastante tempo. Cá estamos, três anos e muitas vacinas depois, e a regra da máscara voluntária não "vingou". Seguimos com rodízio de gripes e viroses e a covid virou mais um item da lista.

Mas voltando a 2020, gosto de tentar lembrar quem eu era antes de parir. Não muito diferente do que sou hoje, talvez mais intensa em sentimentos certos e pessoas erradas. Era uma menina que sabia que não seria fácil do dia 28 em diante, mas consciente de que conseguiria. Disposta a ser uma mãe possível e não perfeita.

Minha rede de apoio foi maravilhosa. Apesar das lembranças nada boas que envolveram, inclusive, a hora do parto em si, sempre soube que podia contar com a minha mãe, tias, avós, meu pai. Foi quase um mês ganhando mingau na cama. Minha mãe dando banho na bebê e me ajudando na cicatrização da cesárea. Aliás, benditas calçolas da Demillus que ela me presenteou, nem usei cinta. Não poderia ter tido um puerpério mais tranquilo.

Isso contou muito para eu não pirar. Uma semana depois do parto, lembro que chorei por três motivos. Um, porque a gata Nayla, na época, ficou doente, com uma aparência horrível, cheia de secreção nos olhos, parecia que iria morrer e eu encasquetei que ela iria MESMO morrer e entrei num looping de tristeza por conta disso. Dois, porque uma outra ideia depressiva tomou conta da minha mente e eu comecei a pensar que eu morreria jovem e não veria a minha filha adulta. A minha filha que tinha acabado de nascer. Pois é. E três, me vi chorando de raiva por saber que tudo isso rolou simplesmente por pura desordem hormonal, o que é super normal e tem até nome, descobri hoje. Chama-se baby blues.

Bom, basicamente, dois de julho de 2020, eu estava bem próxima de vivenciar tudo isso e não fazia ideia. Gostava de imaginar como seria a voz dela, o choro. Se seria calma como eu fui, se seria agitada. Como seria seu rostinho. Temendo, por dentro, que nascesse feia. Que bobagem.

Nasceu mais linda do que qualquer desenho mental que eu pudesse ter concebido. A personalidade? Não demorou pra eu descobrir que seria totalmente o meu oposto. Ainda na maternidade, chorou de perder o fôlego. Nunca gostou de ser contrariada. Nasceu com 3.515kg e 51cm. Chorou as três primeiras noites, vi o sol nascer. Depois encontramos nosso ritmo, amamentava deitada mesmo. Uma semana para pegar o peito sem precisar de complemento da chuquinha, outro pavor que eu tive: que não rolasse amamentação exclusiva. Mas rolou, até os seis meses. E depois, até 1 ano e oito meses. Um orgulho e privilégio.

No meio de tudo, as fases, os saltos. Ah, os benditos saltos. Quando tudo parecia bem, o ritmo do nada mudava. Mas nada como o conhecimento para entender e se preparar. Três, seis, nove meses. Muitos saltos. Acho que até hoje tem, prestes a completar três anos. Parei de ler a respeito. 

Depois do desmame, o desfralde. Iniciei quando ela tinha dois anos e quatro meses. Foram uns dois meses de muito xixi e coco no chão. Pano com produto de limpeza sempre a mão. Higienizar o vasinho sanitário da Mulher Maravilha no tanque umas, sei lá, 10 vezes por dia. Felizmente deu certo, hoje ela só usa fralda pra dormir. 

Próximo desafio? A chupeta. Um acalento para ela e para mim, mas sei que não posso deixar passar muito para não prejudicar a dentição definitiva dela. Aliás, que tenhamos também um pouco de sorte nisso. Aparelho ortodôntico, aí vamos nós?

Vou tentar a tática da fada da chupeta que li hoje em um site aleatório. Amo usar a criatividade também nessas horas. A fada da chupeta, prima da fada do dente, vai escrever uma carta explicando que ela precisa deixar a chupeta na caixa mágica, para ela levar para a terra dos bebês que precisam de chupetas, e em troca, ela vai deixar um brinquedo. Será que vai funcionar?

Já vou preparar psicologicamente para uma semana sem dormir direito, com ela choramingando a falta da chupeta. Mas vai ser por uma boa causa. Depois volto aqui para contar se deu certo. 

Enquanto isso, fico babando no primeiro desenho dela (cuja imagem fez algum sentido rsrs) da mamãe, que impressionou a minha mãe e a mim, de verdade! Ela é uma esponjinha de aprendizado. Apesar de achar que eu aprendo muito mais com ela do que o contrário.


Não fiquei lindona? kkk




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